Um club da Má-Lingua

Федор Достоевский
Um club da Má-Lingua

I

Maria Alexandrovna Moskalev é com toda a certeza a dama de mais subida importancia em Mordassov, nem haverá quem o conteste. Ao contemplál-a, dirieis que não precisa seja de quem fôr, e que, antes pelo contrario, toda a gente lhe deve obrigações. Goza de poucas sympathias, na verdade, é cordialmente detestada, até: mas temida tambem universalmente, e é isso que ella quer. E não representará isto um rasgo de finura politica? Por que será que, por exemplo, apezar de nutrir paixão por mexericos e de não poder dormir descansada no dia em que não soube nada de novo, por que será, sim, que pela apparencia de Maria Alexandrovna, tal é a sua majestade, não occorre á mente, seja de quem fôr, o facto de ella ser a primeira coscovilheira d'este mundo, ou quando menos, de Mordassov? Dir-se-ia antes que assim que apparece deveriam cessar, acto-continuo, de todo os mexericos, as comadres tremerem como garotetes em presença do prefeito, e as conversas guindarem-se desde logo aos assuntos mais transcendentes. E todavia, ella, a respeito de uns certos Mordassovenses está em dia com umas chronicas tão escandalosas que, se as dissesse a proposito e provando-lhes – como ella o sabe fazer – a authenticidade, Mordassov em pêso tremeria tal qual tremeu Lisboa em tempos. Mas se ella quanto a segredos é o proprio tumulo; é necessario dar-se um concurso de circumstancias extraordinarias para que ella consinta em falar n'umas certas coisas, – e isto ainda entre amigos da maxima intimidade. Poderá arriscar uma allusão, dar a entender que "está em dia"; mas pella-se por manter a qualquer individuo – homem ou mulher – na sugestão de um temor perpetuo, em vez de o esmagar de um golpe. Isto é que é intelligencia, isto é que é tactica! Maria Alexandrovna sempre se distinguiu mercê do seu irreprehensivel comme il faut. É citada como modêlo. Lá quanto ao comme il faut não tem rival em toda Mordassov.

Poderá, com uma palavrinha, matar, esfacelar, anniquilar uma pessoa que lhe haja cahido no desagrado, – mas sem lhe tocar, sem suspeitar, dir-se-hia, a importancia da dita palavrinha. Semelhante traço de caracter assás trescala a alta sociedade.

Tem optimas relações. A Mordassov ainda não veiu pessoa que não ficasse penhorada com as recepções de Maria Alexandrovna. O maximo numero até de taes visitantes accidentaes ficaram-se carteando com ella. Houve até um poeta que lhe dedicou versos: Maria Alexandrovna exhibe-os com desvanecimento. Um litterato de arribação offereceu-lhe uma novélla da qual fizera leitura em casa da nobre senhora, durante um sarau: produziu optimo effeito. Um sabio allemão, vindo expressamente de Carlsruhe no intuito de estudar uma especie singular de vermezinhos chavelhudos que se encontram no nosso governo (o dito sabio escreveu ácerca do alludido vermezinho quatro volumes in-quarto) tão encantado ficou com a amabilidade de Maria Alexandrovna, que ainda hoje, lá de Carlsruhe, lhe escreve cartas respeitosas e moraes. Chegaram até a estabelecer parallelos entre Napoleão e Maria Alexandrovna. Foi brincadeira, facecia de ciumentos, e comtudo, apontando a estranheza de semelhante comparação, atrever-me-hei a fazer uma pergunta ingenua; por que seria que a Napoleão, no acume da sua gloria, o tomaria uma vertigem? Os legitimistas attribuem uma tal fraqueza á vilã extracção de Bonaparte, que nem era de estirpe realenga nem sequer de nobreza limpa. Por espirituosa que seja semelhante opinião, – pois tresanda á mais brilhante épocha da antiga côrte franceza, – atrever-me-hei ainda a perguntar: mas por que é que a Maria Alexandrovna não a tomaram nunca vertigens? Pois é um facto; veiu a ser e depois ficou sendo sempre a dama de mais subida importancia em Mordassov. Conheceu horas atribuladas, não ha duvida, e, em certas circumstancias, houve até quem dissesse lá comsigo: «Mas que é que ha de agora fazer Maria Alexandrovna?» E o obstaculo achava-se transposto como que por encanto.

Toda a gente estará lembrada da maneira porque o marido, o Aphanassi Matveich, perdeu a posição. Deu-se isso em seguida a uma inspecção aos fiscaes a quem esta achou tolos em demasia. E a cuidarem que Maria Alexandrovna não deixaria de perder o sizo, humilhar-se, supplicar, n'uma palavra, "rebaixar a sua linguarice." Longe d'isso! Percebendo que as supplicas nada adeantariam, houve-se de modo que a sua influencia não soffreu a minima quebra, e que a sua casa continuou a ser a primeira casa de Mordassov. Anna Nikolaievna Antipova, inimiga figadal de Maria Alexandrovna, a despeito das exteriorizações de mundana amizade, já cantava victoria. Mas não tardaram em perceber que era difficil atrapalhar Maria Alexandrovna, e que esta era mais fina do que a suppunham.

Aqui, vem ao pintar umas palavras a respeito de Aphanassi Matveich, marido de Maria Alexandrovna. É um homem muito bem parecido, a correcção em pessoa. Mas, nos casos criticos, assustava-se que nem um borrêgo que percebesse que lhe mudaram o que quer que fosse ao cancêlo do redil. Circumstancia que lhe não tolhia o ostentar ordinariamente uns ares de summa importancia, sobretudo nos jantares de apparato, quando punha a gravata branca. A majestade de taes sujeitos dura até ao momento de abrirem a bôca: mas então é tratar de metter rolha nos ouvidos. Semelhante homem, com toda a certeza, é indigno de pertencer a Maria Alexandrovna. É esta a opinião geral.

E d'ahi, é unicamente devido á genialissima esposa o facto de elle se conservar no seu posto. A meu ver, ha muito tempo que o deveriam ter espetado na horta á laia de espantalho para os pardaes.

Alli, e só alli, poderia ter sido de alguma utilidade. Maria Alexandrovna fez, pois, muito bem em exilar Aphanassi Matveich para a aldeia de cento e vinte almas que ella possuia a tres verstas de Mordassov. E de caminho, digamos que a dita propriedade representava a totalidade dos bens facultando a Maria Alexandrovna o custear tão bem, e com tamanho estadão, a sua casa. Facil foi pois o perceberem que havia supportado Aphanassi Matveich unica e exclusivamente por causa do seu cargo, dos respectivos ordenados e… e ainda de uns certos emolumentosinhos. Agora, que, velho, já nem representava ordenados nem emolumentos, não seria de justiça affastá-lo na qualidade de inutil trambolho?

Aphanassi Matveich leva no campo uma vida agradabilissima. Fiz-lhe uma visita e passei com elle uma hora encantadora. Ensaia ao espelho as gravatas brancas, engraxa as proprias botas, não por necessidade, mas sim por amor da arte, porque gosta de ver as botas a luzir muito. Toma chá tres vezes ao dia, vae a miudo ao banho e não se rala com coisa nenhuma…

Estão lembrados d'aquella nojenta historia, ha dezoito mêses, a proposito da Zinaida Aphanassièvna, filha unica, de Maria Alexandrovna e de Aphanassi Matveich? Zinaida é uma beldade, e uma menina muito bem educada, de mais a mais; mas tem vinte e trez annos e ainda está solteira. Uma das principaes causas a que atribuem o celibato da Zina, é o boato vago da estrambotica ligação que dizem haver tido, ha exactamente dezoito mêses, com um réles utchitel1 – boato que ainda se não desvaneceu. – Citam uma missiva amorosa escrita pela Zina e que dizem ter corrido Mordassov de um extremo ao outro. Mas, por favor, não me dirão, leram a tal epistola? Não houve em Mordassov pessoa que a não visse. E então! onde pára ella actualmente? Toda a gente ouviu falar nella, mas quem foi que a viu? Eu, da minha parte, ainda não encontrei uma só pessoa que a tenha visto com seus proprios olhos.

Alluda alguem á tal epistola na presença de Maria Alexandrovna e aposto desde já que ella não perceberá sequer esse alguem. Mas supponhamos que tenha havido o que quer que fosse de verdade em semelhante atoarda, e que a Zina haja escrito a decantada epistola, (effectivamente, estou convencido de que a escreveu): admirem então a habilidade de Maria Alexandrovna.

Como se havia de atabafar caso tão escandaloso? – Pois bem, procurem, nem vestigios, prova, que é della? Maria Alexandrovna nem sequer se digna tomar conhecimento de calumnia tão soez, e comtudo, Deus sabe o trabalho que lhe custou conservar intacta a honra da filha unica! Que a Zina não tenha ainda casado, isso percebe-se, de mais, até: onde iria ella por aqui encontrar noivo? A Zina só pode casar com um principe reinante! Já alguem viu mais peregrina formosura? É soberba, lá isso é… Dizem que Mozgliakov a pedira em casamento, mas semelhante consorcio jámais se effectuará. Quem vem a ser esse tal Mozgliakov? É môço, assás bem parecido, elegante, peterburguense, proprietario de cento e cincoenta almas livres de hypotheca. Mas não fura paredes! Leviano, tagarélla, apaixonado pelas novas ideias… E que representarão cento e cincoenta almas com ideias novas? O casamento nunca se realizará.

Quanto acaba de ler o amavel leitor foi escrito, ha cinco mêses, unicamente por admiração. Devo convir em que nutro uma tal ou qual sympathia por Maria Alexandrovna. Quizera escrever o panegyrico de tão magnifica dama sob a forma de uma carta dirigida a um amigo, a exemplo d'aquellas que outrora publicavam as revistas, n'esses bons tempos que já lá vão, e que, louvôres a Deus! não voltam cá outra vez!

Mas se não tenho um unico amigo, e, graças á incuravel timidez que de mim se apodera assim que se trata de litteratura, a minha obra ficou na gaveta na qualidade de tentame sem seguimento.

Cinco mezes eram pois decorridos, quando em Mordassov se deu um acontecimento extraordinario.

Um dia, de madrugada, eis que chega o principe K… e vae hospedar-se em casa de Maria Alexandrovna.

 

As consequencias d'este acontecimento são incalculaveis. O principe passou apenas trez dias em Mordassov. Mas esses trez dias deixaram recordações fataes e inexpungiveis. Direi mais: o principe foi causa de uma verdadeira revolução n'esta nossa cidade. A narrativa da alludida revolução virá a ser, certamente, a pagina mais importante da historia de Mordassov. E é essa pagina que eu, após innumeras hesitações, me resolvi a offerecer, sob forma litteraria ao criterio do respeitavel publico.

A minha narrativa poder-se-ia intitular: "Grandeza e Decadencia de Maria Alexandrovna." Grande e seductor assumpto para um poeta.

II

Direi desde já que o principe K… não era um ancião centenario.

Á primeira vista, comtudo, ninguem podia deixar de pensar que ia reverter outra vez aos elementos, a tal ponto se achava gasto! Corriam em Mordassov as historias mais estranhas a respeito do dito principe. Affirmavam que estava um tanto ou quanto tinôco.

Effectivamente, parecia exquisito que um pomiestchik2 de uma das mais notaveis familias, dono de quatro mil almas, em posição de obter consideravel influencia na provincia, permanecesse enclausurado, tal qual um eremitão, na sua magnifica propriedade. Muitos que o tinham visto, seis ou sete annos atraz, por occasião da primeira vinda do principe a Mordassov, affirmavam que nesse tempo nem podia supportar a solidão nem tinha ainda aquelles seus costumes de eremita.

Eis os esclarecimentos que pude colher a seu respeito bebidos das mais seguras fontes.

Outrora – e onde irá isso! – o principe havia effectuado na sociedade um ingresso de aurora… Durante os annos todos da juventude levara vida airada, requestando as damas, esbanjando por vezes repetidas o seu dinheiro em viagens ao estrangeiro, cantando romanzas, fazendo trocadilhos; mas não se distinguia mediante uma intelligencia acima da marca. Em semelhante vida, não tardou em dar cabo do que tinha, e, quando chegaram os dias da senéctude, ficou sem um kopek. Aconselhou-lhe alguem que voltasse para a sua aldeia, que principiava já a ser vendida em hasta publica.

Aproveitou o conselho, e foi nessa occasião que veiu passar seis mêses em Mordassov. Agradou-lhe immenso a vida de provincia, e pelo espaço de seis mêses acabou de se "alimpar" em amorios com as mundanas provinciaes. Era aliás excellente pessoa, de um fausto principesco (em Mordassov o fausto é o signal caracteristico da mais alta aristocracia.)

As damas sobretudo não cessavam de se alegrar com um hospede encantador a tal ponto. Deixou entre nós curiosissimas recordações; entre outras exquisitices, contavam que o principe gastava a maxima parte do dia ao toucador. Parecia todo elle feito de pedacinhos enxertados. Scismavam onde e como fôra que elle se haveria decomposto d'aquella maneira. Usava chinó, bigode, suissas, e inclusivé uma pêra, tudo postiço até o minimo pellinho, e tudo preto como o proprio azeviche – uma lindeza! Levava todo o santo dia a pôr caio e carmim. Affirmavam que dispunha de um talento especialissimo em disfarçar as rugas do rosto por meio de umas mólazinhas escondidas com o chinó. Affirmavam ainda que trazia espartilho, havendo ficado sem uma costella ao saltar desastradamente de uma janella abaixo durante uma aventura amorosa, na Italia. Coxeava da perna esquerda, uma perna postiça de cortiça, affirmavam, havendo quebrado a verdadeira em Paris, em outra aventura. É possivel que houvesse exaggêro, mas o que é certo, é que o olho direito era de vidro: illudia completamente, aliás; ninguem diria que não era natural. Os proprios dentes eram artificiaes. Passava dias inteiros a lavar-se com aguas-garantidas, a perfumar-se, a encalamistrar-se. Ultimamente, comtudo, principiava a fazer-se velho e a tresler. Parecia estar prestes a terminar a sua carreira, e sabia toda a gente que se achava arruinado, – e eis que de repente lhe morre uma sua parenta muito chegada, senhora de muita edade, vivendo em Paris, e de quem não esperava herdar, em seguida a haver enterrado um mez, exactamente, antes de fallecer, o unico herdeiro. Eram quatro mil almas e uma soberba propriedade a sessenta verstas de Mordassov a reverterem no principe sem a minima partilha. Abalou desde logo para Petersburgo a fim de pôr em ordem seus negocios. Por occasião da partida, offereceram-lhe as damas um sumptuoso banquete por subscripção. Ha quem se lembre ainda de como, n'aquelle dia, o principe foi seductor e espirituoso! Era um tiroteio de calemburgos, de anecdótas extraordinarias. Prometeu voltar o mais breve possivel para a sua nova propriedade e jurou que na volta daria meza franca e uma festa – bailes e luminarias – que nunca havia de ter fim. Depois da sua partida, ficaram as senhoras um anno a falar da tal promettida festa e impacientes á espera do encantador velhinho. Organizavam até excursões a Dukhanovo, a aldeóla do principe, onde se admirava um antigo solar acastellado, um parque adornado de acacias a imitar leões, colinas artificiaes, lagos em que navegavam barquinhos tripulados por turcos de madeira, a tocar flauta, pavilhões de Mon-Plaisir, e quejandos attractivos.

Até que por fim veiu o principe, com grande espanto e não menor decepção de toda a gente, nem sequer passou por Mordassov e foi encerrar-se em absoluto isolamento em Dukhanovo. Correram boatos singularissimos. A datar d'esse momento, torna-se obscura e phantastica a historia do principe. A principio constou que lá por Petersburgo lhe não tinham corrido bem os negocios, que os herdeiros, em vista do seu estado senil, queriam nomear-lhe um conselho judicial receando que voltasse a esbanjar os seus bens. Ainda mais: accrescentavam que aquelles ávidos caçadores de heranças tinham querido internál-o n'uma casa de saude! Afortunadamente para o principe, um seu parente, personagem de summa importancia, saiu em sua defêsa, provando á evidencia que o pobre homem, semi-morto e todo elle artificial, não estava para muita dura, certamente. E que n'essa conformidade os seus bens viriam a reverter nos herdeiros sem que estes se vissem na necessidade de recorrer á casa de saude. Eis o que se diz. São compridinhas as linguas lá em Mordassov. Tudo isto havia assustado o principe, a tal ponto, que se lhe tinha demudado o genio, descambando em eremitão. Por mera curiosidade, vieram felicitál-o varios Mordassovenses: e ou não foram recebidos, ou se o foram foi de modo um tanto exquisito. O principe nem mesmo reconheceu, ou antes, não quiz reconhecer os seus amigos de outrora.

O proprio governador o foi visitar, mas voltou pelo mesmo caminho dizendo que o principe estava tinôco. D'alli em deante notaram que o governador punha uma cara de palmo, assim que lhe falavam na jornada a Dukhanovo… Indignavam-se as senhoras. Até que por fim se veiu a saber uma coisa capital; o principe vivia submettido á tutella de uma figurona por nome Stepanida Matveiévna, – Deus sabe que casta de mulher! – que tinha vindo lá de Petersburgo, velha, obêsa, usando constantemente o mesmo vestido de cassa, e sempre com um mólho de chaves na mão. O principe obedece-lhe em tudo e por tudo e não se atreve a dar um passo sem a consultar. Ella, lava-o com suas proprias mãos, apaparica-o, passeia-o e entretem-n'o, como se fôra um néné; em conclusão, é ella quem bate com a porta na cara aos parentes que principiam a saber o caminho de Dukhanovo… Foi muito discutida, sobretudo entre as senhoras, tão incomprehensivel ligação. Accrescentavam que Stepanida Matveiévna regia com plenos poderes, e sem ter quem lhe fosse á mão, a totalidade dos bens do principe. Substitue feitores, creados, arrecada os rendimentos; é aliás boa a sua administração, e os camponêzes não vêem outra coisa. Com respeito ao principe, este nem já arreda um passo do toucador, a ensaiar chinós, pêras postiças, casacos. Uma vez por outra, joga ás cartas com Stepanida Matveiévna; de vez em quando, dá o seu passeio n'uma egua inglêsa muito mansa: Stepanida Matveiévna acompanha-o sempre em carruagem fechada, prompta á primeira voz, visto como o principe só monta a cavallo por garridice e mal se pode ter em cima do selim. Acontece-lhe tambem o sair a pé, embrulhado n'um sobretudo, com um chapéu de palha enterrado na cabeça, um lenço de mulher ao pescoço, um monoculo no olho e pendurado na mão esquerda um açafate para recolher cogumelos e flôres campestres. Stepanida Matveiévna, vae-lhe seguindo as pisadas, levando á tréla dois latagões de dois lacaios; e um pouco mais atráz, uma carruagem. Se calha encontrarem um mujik que pára e tira o bonné para lhe fazer a sua contumélia dizendo: "Bom dia, paezinho principe. Nossa Excellencia, nosso solzinho!" o principe assesta-lhe o monoculo, acêna-lhe com a cabeça com bom modo e diz-lhe em francêz: "Bom dia, amigo, bom dia!" Qual não foi porém o espanto de toda a gente quando, uma bella manhã, se espalhou o boato de como o principe, aquelle eremitão, aquelle original, tinha vindo em pessoa a Mordassov e se hospedara em casa de Maria Alexandrovna! Foi um reboliço por ahi além! Estavam á espera de uma explicação, e perguntavam uns aos outros: "Que quererá isto dizer?" Não faltou quem se estivesse enfeitando para ir a casa de Maria Alexandrovna. Carteavam-se as senhoras, visitavam-se, mandavam as creadas e os maridos colher informações. O que maior espectação causava era a circunstancia de se ter ido o principe hospedar em casa de Maria Alexandrovna, e não em qualquer outra parte. Anna Nikolaievna Antipova ficou mais escandalizada do que outra qualquer pessoa, visto o principe ser ainda seu parente, parente muito arredado, é verdade.

III

São dez horas da manhã. Estamos em casa de Maria Alexandrovna, na Rua Grande, no aposento que a dona da casa, nos dias duplices, enfeita com o titulo de sala. (Maria Alexandrovna, dispõe tambem de um camarim.) O papel das paredes é correctissimo. Os moveis, pouco commodos, arvoram com verdadeira predilecção a côr vermelha. Ha um fogão, e em cima do fogão um espelho; deante do espelho um relogio tendo por assunto um Cupido do mais execrando gosto. Nas paredes, no intervallo das janéllas, dois espelhos a que já tiraram as capas. Adeante dos espelhos, duas banquinhas, e ainda dois relogios. Toma a metade de um apainelado um piano de cauda. (Mandaram vir o dito piano para a Zina: cultiva a musica.) Ao pé do fogão, no qual arde uma bôa fogueira, estão dispostas umas poltronas em desalinho pinturesco a mais não poder ser. Ao meio outra banquinha. No outro extremo da casa, ainda outra mesa, tapada com uma toalha immaculada e em cima, um samovar de prata, a ferver, no meio de um lindissimo serviço para chá. Uma senhora, residente em casa de Maria Alexandrovna, a titulo de parenta affastada, Nastassia Petrovna Ziablova, está especialmente incumbida do chá.

Duas palavras ácerca da alludida senhora. É viuva, frescalhona, com uns olhos castanhos escuros muito vivos, assaz bem parecida; é alegre, velhaca, até; linguareira, escusado será dizê-lo, e sabendo levar agua ao seu moinho; tem dois filhos no collegio, para ahi, algures. Não se lhe daria de tornar a casar; vive com bastante independencia; o marido era official.

Maria Alexandrovna em pessoa está sentada ao pé do fogão: acha-se de boa catadura. Traja um vestido verde claro, assentando-lhe a primor. Está contentissima com a vinda do principe. N'este ensejo, o principe está lá em cima, todo elle entregue á tarefa de se infunicar.

Maria Alexandrovna nem sequer pensa em esconder o seu contentamento. Deante d'ella, um rapaz a fazer boquinhas e a cantar, muito animado, seja o que fôr. Percebe-se que se desvéla por agradar a quem o está escutando. Tem vinte e cinco annos. Se não fossem as suas exuberancias, se não fossem tambem as suas pretensões a engraçado, seria toleravel. Está bem vestido, é loiro e de agradavel presença. Já a elle nos referimos, é o senhor Mozgliakov, môço sobre quem se fundaram esperanças matrimoniaes. Maria Alexandrovna acha-lhe a cabeça um tanto ôca, mas nem por isso deixa de o receber muito bem. Diz elle que está loucamente apaixonado pela Zina. Dirige-se a esta continuamente, ancioso por alcançar um ar de riso a poder de bons ditos e de azoamento. Ella, comtudo, mantem-n'o a distancia, com extrema frialdade. A joven está de pé junto ao piano, a folhear um almanaque. É uma dessas mulheres que produzem effeito geral ao entrarem numa sala. É peregrinamente formosa: alta, morena, com uns immensos olhos quasi pretos, esbelta, com um collo magnifico, uns pésinhos encantadores, espaduas e mãos de molde classico, e um pisar de rainha. Está hoje um tanto descoráda, a pallidez, comtudo, torna-lhe mais conspicuo o rubido fulgor dos labios por entre os quaes lhe luzem, tal qual perolas em fio, uns dentinhos miudinhos e regulares. Era caso para qualquer de nós sonhar com elles, três dias a fio, só de lhes ter posto a vista em cima. É séria a sua expressão.

 

O senhor Mozgliakov dir-se-hia arrecear-se do olhar fito da Zina, pelo menos não ergue para esta os olhos sem um tal qual enleio.

É singelissimo o vestido da joven, de gaze branca: Está-lhe bem o branco, está-lhe lindamente o branco… E d'ahi, que haverá que lhe não fique bem? Traz enfiado n'um dedo um annel de cabello entrançado. A julgar pela côr, aquelles cabellos não são os da mamã. Mozgliakov nunca se afoitou a perguntar de quem seriam aquelles cabellos. Está taciturna, esta manhã, triste, até, ou preoccupada, pelo menos. Em compensação, Maria Alexandrovna acha-se em maré de dar á lingua. De vez em quando, esguêlha uns olhos desconfiados para a Zina, e olhos furtivos quanto possivel, como que não se arreceando menos da joven.

– Estou tão contente, Pavel Alexandrovitch, (dir-se-hia pipilar) que estou capaz de gritar da janella abaixo o meu contentamento a quem passa pela rua. Sem falarmos da agradabilissima surpreza que nos proporcionou, a mim e á Zina, com vir quinze dias mais cedo do que o esperavamos. É caso á parte. Mas o que mais me penhorou foi a attenção que teve comnosco trazendo comsigo o principe. Se soubesse como eu adoro aquelle encanto aquelle vélhinho! Não pode comprehender-me! As pessoas da sua edade seriam incapazes de semelhante affeição. Não sabe as circumstancias que entre mim e elle se deram, ha seis annos? Lembras-te, Zina? E eu sem me lembrar de que n'esse tempo estavas em casa de tua tia. Estou que me não acreditaria, Pavel Alexandrovitch, se eu lhe dissesse, que servi de guia ao principe, que fui para elle, irmã, mãe? Havia lhaneza, carinho, nobreza n'aquella nossa ligação. Era… pastoril!.. Nem eu sei como a hei de definir. Eis o motivo porque elle se lembrou da minha casa com tamanha gratidão, o pobre do principe! E se eu lhe disser, Pavel Alexandrovitch, que é possivel até que o salvasse trazendo-o para minha casa? Não podia evitar o confranger-se-me o coração, durante aquelles seis annos, sempre que me punha a pensar n'elle!.. Eu… quer acreditar?.. até sonhava com elle! Dizem que aquella creatura, a tal sua carcereira, o enfeitiçou, que o deitou a perder… mas, emfim, o senhor arrancou-o das garras d'aquella harpia! Urge aproveitar a occasião para o salvar completamente… Mas conte-me, mais uma vez, como foi que o conseguiu? Descreva-me, muito por miudos, o encontro de um e outro. Eu ainda agora fiquei tão sobresaltada! Não vi senão os traços geraes, mas não ha pormenor que não seja precioso a meus olhos. Se eu sou assim! Pello-me pelas minudencias, nos acontecimentos de maior vulto, são os pormenores que primeiramente me chamam attenção… e… emquanto elle se está arrebicando…

– Mas se eu já lhe contei tudo, apressa-se em responder Mozgliakov, prompto a recapitular a narrativa pela décima vez. Tinha viajado toda a noite… não tinha pregado olho; estava com tanta pressa de chegar ao meu destino! (Esta ultima phrase ia sobrescritada para a Zina.) Tive que aturar contendas, berreiros por occasião das mudas. Eu proprio, confesso, não fiz tambem pouca algazarra. É um poema moderno, sem tirar nem pôr. Mas vamos adeante. Ás seis horas da manhã, em ponto, eis que chêgo á ultima muda, em Ignichévo. Tranzido, mas, isso sim! nem sequer tiro uns minutos para me aquécer. Pégo a gritar: "Cavallos!" Estou em dizer, até, que metti um susto á mulher do capataz das mudas: tinha ao collo um néné, de peito, e estou com receio que se lhe talhasse o leite. – Era admiravel o despontar do sol! Sabe, aquelle pó da geada escarlate e prateada? E eu, sem attentar em coisa nenhuma, ia a vapor!

Empalmo uns cavallos a um tal conselheiro de collegio, – com quem por um triz que não tenho um duéllo. Afiançam-me que um quarto de hora antes tinha abalado da dita muda um certo principe que viaja com cavallos proprios. Que pernoitara na muda. Quasi que nem lhes dou ouvidos, salto para a carruagem, vôo por ali fóra tal qual um prisioneiro escapulido. – Ha uma situação parecida em uma elegia de Fet3. – Ora, a nove verstas da cidade, justamente, em vista do retiro de Svietozerskaia, avisto o que quer que seja de singular! Uma grande carruagem de jornada caída na estrada. O cocheiro e dois latagões de dois lacaios, de pé, junto da mesma, e muito atrapalhados. Lá do fundo da carruagem vinham uns bérros que me confrangiam a alma!.. Eu podia seguir por deante, não tinha nada com isso, mas levou a melhor a humanidade, pois, como diz Heine, mette o nariz em toda a parte. Paro, pois. Eu, o meu yamstchik Semene, e uma outra alma russa, accudimos a ajudar e entre nós seis pômos em pé a carruagem. Pômol-a de pé, – quero dizer, sobre os patins. – Uns mujiks que levavam uma carga de lenha para a cidade ajudaram-nos tambem, (apanharam bem boa gorgêta). E eu a dizer commigo: É o tal principe que passou a noite na muda. Ólho: Santo Deus! É o principe Gavrila! Que encontro este! "Principe! bradei: tiozinho!" Á primeira vista, não me conheceu; nem sei se me reconheceria á segunda: e agora mesmo não estou bem certo em que me reconhecesse. Creio que nem sequer já se lembra do nosso parentesco. Vi-o pela primeira vez, em Petersburgo. N'esse tempo era eu um garoto. Lembro-me muito bem, mas elle, podia-se lá lembrar de mim? Apresento-me: fica encantado! Beija-me, e depois pega a tremer de susto e, em conclusão, desata a soluçar. Por Deus! Vi-o com meus proprios olhos: até chorou! Palavra puxa palavra e, em conclusão, acabei por lhe propôr que viesse até Mordassov tomar um dia de descanso. Consentiu sem hesitações. Declarou-me que ia para o retiro de Svietozerskaia, para casa do arcypreste Missail a quem tem em grande conta; que a Stepanida Matvéina – qual de nós, parentes do Principe, não terá ouvido falar de Stepanida Matveiévna? O anno passado, escorraçou-me de Dukhanovo com o pau da vassoira!.. Que a Stepanida Matveiévna recebera pois uma carta exigindo a sua presença em Moscou pelo fallecimento de alguem, o pae ou a filha, nem sei nem quero saber, – talvez que pae e filha ao mesmo tempo, e ainda por cima para ahi qualquer segundo sobrinho empregado na fiscalização dos vinhos. N'uma palavra, tivera que conformar-se, desamparar o seu principe por uns dez dias e levantar vôo, a toda a pressa, para a capital.

O principe demóra-se um dia; dois dias, sem se mexer, a experimentar chinós, a encalamistrar-se, a pentear-se, a fazer paciencias: em conclusão, a solidão acabou por lhe ser pesada. Foi então que mandou pôr o trem e metteu a caminho do retiro de Svietozerskaia. Alguem do seu séquito, com medo do phantasma da Stepanida Matveiévna, atrevera-se a ir-lhe á mão. Mas o principe é cabeçudo e tinha abalado na vespera, depois de jantar, pernoitando em Ignichevo, largara da muda de madrugada, e, justamente na volta do caminho que vae ter á residencia do arcypreste, por pouco se não despenha com a carruagem n'uma barroca. Salvei-o e persuadi-o a vir para casa da nossa amiga commum, a dignissima Maria Alexandrovna. Diz elle que a senhora é a dama mais encantadora que tem encontrado em toda a sua vida, e cá estamos. O principe está a pôr em ordem os arrebiques com o criado particular de quem porfiou em não prescindir. Mais depressa se deixaria morrer do que apresentar-se em casa de uma senhora sem a roupa toda da ordem… E aqui tem a historia toda… é uma historia deliciosa!

– Que humorista, hein! Zina? exclama Maria Alexandrovna. Que captivante narrador! Escute, Pavel, uma pergunta: explique-me bem o seu parentesco com o principe. O senhor trata-o de tio.

– Por Deus! Maria Alexandrovna, se eu sou o proprio a não saber, como é que sou seu parente. Estou em dizer, até, que talvez seja preciso para ahi um cento de gravêtos para sermos do mesmo ramo. Mas eu cá trato-o de tiozinho, e elle responde-me. E ahi tem, até hoje, todo o nosso parentesco…

1Mestre escola
2Proprietario territorial.
3Poeta russo.
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